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quinta-feira, 3 de abril de 2014

A relativa passividade turca

Uma coisa me intriga muito - e creio que não só a mim, mas a maioria dos amigos estrangeiros que tenho comentam o mesmo sobre seus turcos mais próximos. O "yapacak hiç bir şey yok" (não há nada que possa ser feito) é quase um mantra por aqui.

Não sei se são os turcos de İzmir, não sei se são apenas os que me rodeiam, mas o fato é que clamar os próprios direitos não é lá muito hábito deles. Será?

Depois que descobri o Şikayet Var (www.sikayetvar.com) não tenho dúvidas na hora de sentar o dedo no teclado e mandar bronca. Seja o mau atendimento de algum restaurante, seja o carro de empresa cujo motorista jogou lixo na rua ou dirigiu perigosamente colocando em risco a vida de outrem.

E tem muita gente lá reclamando também! Entre no site só por curiosidade e escolha a categoria de reclamação. Outro dia uma moça mandou uma bem inusitada: deu queixa do seriado "Kurtlar Vadisi" que está há 10 anos no ar e toma a atenção do marido dela todas as quintas à noite. Fora que o marido grava os episódios e assiste as reprises frequentemente. Eu apertei o botão de "destek" (algo como "dar apoio") e deixei meu comentário. O recurso "destek" não existe mais, infelizmente.

Não estou certa, mas creio que o time do "şikayet var" é bem menor que o "yapacak hiç bir şey yok".

Ontem numa conversa na casa dos meus cunhados só me fez pensar ainda mais sobre isso. Falando sobre atendimento médico, eles estavam elogiando o sistema, em sua totalidade, todos os hospitais particulares, e que está muito melhor do que 30 anos atrás.

- E minhas amigas mesmo falam: ah, o médico não gritou comigo então ele é um bom médico. - disse minha concunhada.

- COMO? "O MÉDICO NÃO GRITOU COMIGO ENTÃO ELE É UM BOM MÉDICO??????"

O conceito deles de bom se baseia nisso, porque a 30 anos atrás era tão ruim, mas tão ruim que mesmo quando o atendimento é meia-boca tá bom.

- Porque muitos ainda veem o médico como se fosse Allah. - completou.
- Eu vejo médico como um profissional e eu a cliente. E como o cliente paga, o cliente tem razão.

Dae o boca aberta do meu cunhado, o "dono da verdade absoluta do universo", começou com o discurso dele baseado em nada: ele compara a Turquia com a Europa (nunca morou na Europa) e fala para eu deixar pra lá porque eu só passo nervoso a toa perdendo tempo em reclamar.

Dessa vez eu respondi.

- De que adianta você reclamar, com você eles fazem de um jeito e com os 500 que vêm depois de você volta a ser a mesma porcaria.
- Mas e eu com os 500? Eu não estou nem aí com eles, eu quero saber de mim!

Ele não esperava essa resposta. Até parou de falar e ficou me olhando.

- Mas ninguém pode mudar isso. Uma pessoa só não muda o sistema ...
- Ué, Atatürk não mudou?
- Atatürk não fez bosta nenhuma se tivesse feito não estaríamos nessa situação. - respondeu esse absurdo só pra não ficar por baixo. Ainda bem que eu tinha duas testemunhas, incluindo a esposa dele.

Sem venerar Atatürk, mas falar que ele não fez nada beira o pecado. Ele fez, fez pra caralho mas e depois? E os que vieram depois?

Tem muita gente engajada, de todo o lado. Falar que todos os turcos não têm iniciativa é errado. Assistimos recentemente a onda de protestos em diversas capitais turcas. Essas pessoas estão longe de serem passivas.

O que posso concluir é que, os que são passivos o são em demasia!

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Esse post é pra você, que mora com sua família na Turquia. Ainda mais se você tiver filhos ...

Quando o assunto é Seguro as pessoas se esquivam porque ninguém quer pensar no pior. Hoje eu fiz uma entrevista com meu marido Mustafa, que explica sobre algumas modalidades de seguro na Turquia.


Mustafa Köşlü, agente de seguros há 18 anos no ramo, com escritório em Alsancak - İzmir,esclarece alguns pontos sobre Seguro na Turquia


Infelizmente aqui na Turquia a maioria das pessoas têm o hábito de fazer somente o seguro do carro - e somente o obrigatório!

Lógico que ninguém quer pensar no pior, mas e quando ele acontece o que fazer? Não é a toa que verificamos se o gás está fechado, se as janelas e portas estão trancadas antes de um fim de semana na praia, por exemplo. Ninguém quer dar sopa para o azar.

Direciono esse post às brasileiras que se casaram com turco e vieram morar neste belo país, no meu país minha bela Turquia. Sei que entender o sistema turco leva um tempo e muitas vezes vocês dependem da informação que seus maridos passam pra vocês.

Gostaria de apresentar as modalidades de seguro com as quais trabalho e caso haja interesse em obter mais informações não hesite em me contatar.

Plano de Saúde (particular)

Sabemos que as esposas estrangeiras acabam usando o SGK do marido para ter acesso à rede pública e particular de hospitais na Turquia. Infelizmente nosso sistema público não é o que gostaríamos, e mesmo a rede particular anda superlotada. 

Minha esposa - como muita gente sabe - tem alergia a pimenta e muitas vezes tive que correr com ela para o hospital. Graças a Deus essa situação tem acontecido com menos frequência, mas dá última vez tive que interná-la no Kent Hastanesi devido à uma violenta intoxicação alimentar, e usamos o Plano de Saúde que providenciei para ela assim que nos casamos.
Fiquem com ela no mesmo leito, fomos super bem atendidos e não precisei me preocupar com a conta porque o plano cobriu tudo.

Minha esposa é valiosa pra mim, e quero que ela seja atentida pelo melhor, caso precise. Espero que não precise mais, mas caso ocorra tenho a tranquilidade de que ela estará nas melhores mãos.

Seguro Predial

A Turquia é linda mas infelizmente fica sobre duas falhas geológicas, o que sujeita grande parte do país à tremores de várias escalas: desde pequenas e constantes até desastrosas, como o de Van que ocorreu alguns anos atrás.
Mesmo tremores de pequena intensidade podem rachar uma parede, comprometer a estrutura de uma piscina ... causar algum dano.
Ainda tendo Van como exemplo, apenas 9% das casas possuíam seguro. 9% !!!
É um número que não condiz com a realidade.

O seguro predial custa bem menos do que você imagina. Sai bem mais caro remediar.

Seguro do carro

Sei que em São Paulo ter um carro sem seguro é como dar o carro de presente pro ladrão. Aqui em İzmir em geral não temos esse tipo de problema. Mas os turcos são famosos por criarem suas próprias regras no trânsito, então colisões podem acontecer...
Além disso ninguém está livre de uma avaria aqui e ali.
Faça uma cotação sem compromisso. Garanto que vai se surpreender como custa pouco para você dirigir com sossego.

Seguro de vida

Minha esposa tinha trabalho, planos e uma vida inteira em São Paulo e largou tudo isso por mim. Esse ano ela completará 37 anos, tem muitos planos para o "recomeço" dela aqui no meu país e sei que vai levar um tempo para ela arrumar trabalho, fazer carreira, enfim dar andamento naquilo tudo que ela largou por mim.

E se algo acontecer comigo daqui uns 5-10 anos? De repente minha esposa vai se ver com 42-47 anos, voltando pro Brasil com uma mão na frente e outra atrás e tendo que começar tudo de novo do zero?

E se tivermos um filho até lá, como vai ser tudo isso?

Ninguém quer pensar no pior, mas se ele acontece a vida de quem fica pode ficar bem difícil. Fale com seu marido sobre isso. Afinal, você deixou tudo para trás por ele.

Garanta os estudos dos seus filhos caso o pior aconteça

Existe uma modalidade de seguro que garante que seus filhos vão terminar os estudos caso - Deus nos livre - aconteça algo com você ou o pai da criança. Entre em contato comigo que terei o maior prazer em lhe explicar esses detalhes todos.

Seguro contra 12 doenças graves específicas

Anos atrás meu amigo Özden teve câncer de pulmão - mesmo após ter largado o cigarro há 9 anos. Estive ao seu lado no hospital, acompanhei sua recuperação lado-a-lado como um amigo de infância deve fazer.
Após sua total recuperação veio a notícia: ele recebeu 100 mil liras do seguro que havia feito comigo bem antes de imaginar que pudesse estar carregando aquela doença.
Consulte valores comigo.

Seguro de barco

Batalhou a vida toda para ter um luxo só seu, esperando lá no cais a temporada chegar pra curtir com seus amigos? Você merece, e merece também ficar tranquilo caso aconteça alguma coisa com seu barco, jet ski ou iate.
Faça uma cotação sem compromisso.

Seguro viagem

Ninguém quer ter uma dor de barriga em casa, passar por um acidente no exterior ou coisa do tipo. Lógico que na hora de planejar uma viagem a gente só se lembra dos detalhes bons.
Uma vez minha esposa contou de uma amiga de faculdade que foi para os EUA num programa de intercâmbio e, assim que chegou na casa onde ia ficar decidiu tomar uma ducha. E não é que ela se escorregou e batendo o rosto na banheira cortou o supercílio?
Como ela tinha feito o seguro-viagem recebeu o reembolso das despesas assim que voltou para o Brasil.

Se você está na Turquia e pensa em viajar para o exterior (e não tem plano de saúde no local de destino...) fale comigo. Saí muito mais barato do que remediar.

Previdência Privada

Veja o link: http://lucinaturquia.blogspot.com.tr/2014/03/previdencia-privada-na-turquia-pra-quem.html



Mustafa Köşlü
mkoslu@hotmail.com
atendimento em turco, inglês e português (com a esposa de intérprete)
meu escritório fica em Alsancak próximo à Mesquita de Alsancak (Alsancak Camii)
ATENDO TODA A TURQUİA

Entenda o Meme do gato que causou o apagão enquanto rolava a apuração dos votos na Turquia

Essas eleições serão inesquecíveis pra muita gente ...


De acordo com declaração do Ministro de Energia, o apagão que ocorreu bem no momento da apuração dos votos das eleições que ocorreram no dia 30 foi causado pela entrada de um gato no transformador.

"Espri yapmıyorum trafoya kedi girdi. Bu ilk kez yaşanmadı. Bunu seçime bağlamak yanlış" dedi.
"Não estou brincando um gato entrou no transformador. Não é a primeira vez que isso acontece. Isso não está ligado às eleições."

Fonte: http://www.cnnturk.com/haber/turkiye/bakan-yildizdan-elektrik-kesintisi-aciklamasi-trafoya-kedi-girdi

No facebook o gato já virou MEME:

- O trocadilho "Günah Keçi değil, günah Kedi" ("Não é Bode Expiatório, é Gato Expiatório");

Pra ver mais acesse esse link http://galeri.izmirgundem.com/galeri/kedidir-kedi-salgini.html

* "Angara" no lugar de "Ankara" - quem mora em Ancara e fala com sotaque típico troca o "K" pelo "G". "Ulan" seria um correspondente do "meu" usado em São Paulo, mas não é bem visto quando falado por mulheres ou em conversas formais...

Mapa do Gato



domingo, 30 de março de 2014

Batendo papo com o oficial da Jandarma que nos parou a tanto tempo atrás

O mundo da voltas e gira, deixando a gente tonta. Às vezes eu acho que minha vida é uma novela, mas isso só é coisa da minha cabeça mesmo.

Numa noite qualquer do começo de agosto de 2011 eu e meu marido fomos parados pela Jandarma, que fazia um controle rotineiro em nossa vila. Não falava nada em turco, não tinha o passaporte comigo (no dia anterior tínhamos dado entrada na minha permissão de residência).
Eu só tinha o RG brasileiro comigo, que vale tanto quanto uma casca de banana aqui ...

O que me salvou foi o fato do sargento ser louco por futebol e me pedir os palpites do campeonato brasileiro ...

Dias depois, a imigração manda a Jandarma fazer controle lá em casa, e eu reconheci o sargento. Servi café brasileiro e chá para ele e seus homens. Naquele dia ele nem quis ver meu passaporte. "Acredito em você." foi o que eu entendi.

Hoje, lá na frente do colégio onde meu marido vota estava o mesmo sargento - cujo nome não guardo de jeito nenhum - e seus homens, fazendo a segurança e impedindo boca de urna.

Dessa vez eu é quem fui falar com ele.

- Olá oficial, o senhor se lembra de mim? Sou a brasileira que mora lá no topo da montanha...

Ele apertou minha mão, me olhando boquiaberto, num misto de surpresa e confusão.

- Mas você está falando turco!

O tempo passou ... muito tempo passou e eu trabalhei duro. Meu marido investiu em mim. E eu honrei cada centavo desse duro investimento.

O sargento me perguntou várias coisas sobre meu país, se eu não ficava entediada de passar o dia sozinha na roça onde moramos, se eu criava patos (sim, patos!!!) para passar o tempo.
- Oficial, esse não é meu estilo de vida. Eu sou como as mulheres de İstambul - que estudam e trabalham!
Ele me olhou admirado. E perguntou quantos idiomas eu falava. Depois comentou:
- Meu Deus, por que todo estrangeiro fala mais de 3-4 idiomas? Nosso povo é muito preguiçoso mesmo! - e olhou por cima do meu ombro, dizendo: - Acho que eles nunca viram uma estrangeira antes. Pararam aqui por sua causa!

Ao sargento se juntaram outros: o atual "Muhtar" do vilarejo, candidato à reeleição, e seus cabos eleitorais, e algumas crianças curdas e outras filhos de ciganos que moram na aldeia (posso dizer que moramos em uma...) que me perguntaram se eu conhecia o Neymar e o Alex de Souza.

"- Gente, nunca vou esquecer desse dia, nunca vi isso na minha vida!" - foi o que escutei de um deles.

O sargento ainda achou de inventar que meu pai era famoso no Brasil, era prefeito de São Paulo kkkk

Meu marido tava subindo a rampa da saída da escola e quando me viu rodeada por uma pequena platéia abriu um sorriso. Parou, trocou idéia com o pessoal e telefones. Depois fomos embora.

Acenaram pra gente quando nosso carro passou. Diferente da primeira vez quando fui abordada e espiada apenas como um bicho exótico hoje eu me senti mais do que gente: me senti celebridade.

Será que rola deu ser vereadora?




Um recado muito inusitado pendurado num carro numa rua qualquer de Alsancak

Um dia passeando com meu marido em Alsancak (que é um bairro chique aqui em İzmir!) me deparei com essa inusitada cena e não pude deixar de registrá-la. Um carro havia estacionado em frente a rampa da calçada - destinada a pessoas com deficiência física - e alguém dos arredores deixou um recado para o dono do carro. Meu marido corrigiu o turco do autor da mensagem, que ficou assim:

"Sizin bu duyarsızlığınıza hayran kalıyorum. O önüne park ettiğiniz rampa sizin kullanımınız için değil. Hani dingil gördüm, ama senin kadarını ender gördüm. Gerçekten incelenmesi gereken bir örneksiniz.
İnşallah sizin bu rampalara ihtiyacınız olmaz."

"Fico admirado com a sua indiferença. O lugar em frente a rampa onde o senhor estacionou não é de seu uso. Já vi muito babaca, mas babaca como você pouco vi. Realmente o senhor é um exemplo que precisa ser pesquisado. Deus queira que o senhor nunca necessite de rampas como essa."



sexta-feira, 28 de março de 2014

Sindrome de Amélia alheia não me afeta

Fui comprar cortinas para o quartinho - que talvez se torne "quarto de hóspedes" e estava babando num tecido florido todo delicado. Já havia decidido que ia ficar com aquele quando entra uma turca enxerida e mete a mão no mesmo tecido, colocando o corpo dela na minha frente!
Praticamente se pondo entre eu e o tecido, a velha vira pra mim e pergunta"você vai comprar esse ?". "Sim." respondi educadamente."Ah .... mas você tem que perguntar se precisar passar !" - disse em tom de autoridade e os olhos arregalados por trás dos óculos pesados.

Eu tinha que dizer alguma coisa ...

Olhei bem na cara dela, me inclinando levemente respondi:
- Eu não perco meu tempo passando cortinas, minha senhora. Tenho coisas muito mais importantes pra fazer da minha vida...

A velha me olhou de boca aberta e se mandou, sem falar com nenhum vendedor. Foi como se tivesse me visto da rua e decidido entrar só pra se meter no meu negócio.

Se era portadora de problemas mentais eu não sei, mas a cena lhe pareceu familiar? Quem mora na Turquia sabe de duas coisas (dentre outras muitas):

1- eles são abelhudos num grau inacreditável pra ser verdade.

2 - As mulheres tem uma síndrome de Amélia tão, mas tão exarcebada que não basta ser Amélia, elas têm que mostrar que são mesmo e extravasar todo o sofrimento da condição que elas mesmas se impõem.

O prêmio? Diversas LER (lesão por esforço repetitivo), é isso que se ganha.

Não, a minha casa não é um chiqueiro. Eu limpo a casa, não tenho empregada e mesmo quando cai de cama a casa estava limpa - o marido assumia a função, lógico.

A filosofia aqui em casa é assim: a vida é muito curta pra ficar lambendo a casa. Limpeza sim, mas sandice não. E eu quero que os costumes locais se explodam, porque enquanto fiquei internada quem me limpava era meu marido, e mais ninguém, absolutamente. A concunhada, no começo veio muitas vezes querer meter o nariz, mas depois de muita briga e verdade falada na cara ela só faz isso se quiser ouvir o que não quer ...

Onde duas surdas não se entendem ... caso verídico

Essa aconteceu agora pela manhã, enquanto a velha máquina de lavar batia a toda e fazia um barulho mais alto do que turbina de avião.

Eis que o telefone toca e eu atendo, a única coisa que entendi foram a primeira e a última palavra (que, no caso do turco era um verbo) me chamou de Sra Silva e anunciou quem estava falando mas, quem era não entendi. Como a moça estava ligando de um call center, mais parecia que estava no meio da Bolsa de Valores de São Paulo em pleno pregão.
- Minha querida, não consigo entender NADA do que você está falando ... tem muito barulho atrás de você ! - me senti a "velha surda" da antiga "Praça é Nossa".

Ela repetiu umas 3 vezes, na quarta vez - quando o barulho ao fundo como num passe de mágica cessou - eu entendi "Sağlık Bakanlığı" (o Ministério da Saúde, pra quem eu encaminhei reclamação duas vezes por email e ainda aguardo retorno).  Perguntei pra confirmar se era do "Sağlık Bakanlığı" e ela disse que sim (!!!!)
Desci a lenha no sistema, falando das enfermeiras que nunca usam luvas pra fazer o exame de sangue e das minhas lutas nos hospitais pelos quais tenho peregrinado (por conta da minha alergia à pimenta, coisa que acho que até Atatürk já sabe).
Tava toda empolgada no meu discurso inflamado, quando ela me pergunta espantada:
- As enfermeiras não usam luvas pra fazer exame de sangue???? - perguntou.
- Ao menos na maioria dos hospitais em que fui, não, elas não usam!
- Mas minha senhora, eu estou ligando do Juan Juan Saç Bakımı (era pra vender produto pra tratar do cabelo).

Rimos, e rimos e rimos. Eu juro que nem me lembrava que um dia perdido no tempo deixei meu telefone pra saber de tratamento pra cabelo. Eu me senti uma idiota, mas não me senti sozinha, porque ela também tinha dito "sim" quando perguntei da onde era.

Ela, lógicamente, tentou fechar negócio comigo, mas como muito tempo havia se passado desde que eu contatara ela e já havia me resolvido com outra linha de tratamento pro cabelo, tive que dar uma desculpa elegante:

- Agora não vou poder resolver nada, benzinho, porque vou viajar amanhã para o Brasil ...
Silêncio. A moça perguntou:
- Viajar pra onde, senhora?
- Pro Brasil.
- E quando a senhora retorna?
- Só depois da Copa do Mundo.
Mais um instante de silêncio.
- Tipo ... - (bem, a moça não sabe quando é a Copa do Mundo).
- Tipo, em Julho. Depois de Julho eu tô de volta.

Ela deu risada e nos despedimos. Bem, se depois dessa situação ao menos ela se deu conta do quão descuidadas são as enfermeiras desse país e passar isso pra frente já é alguma coisa. :)


Fazendo merchand de graça, tem até dona Adriana Lima no site fazendo propaganda, e parcelam em até 9 vezes no cartão de crédito do seu marido: http://www.juanjuan.gen.tr/juanjuan-sac-bakim-sampuani-ve-kremi.html

Beijos pra você, logo mais tem mais post!

Manchetes do dia: "depois do twitter, Turquia corta acesso ao youtube

Veja na integra no link (em português): http://www.publico.pt/mundo/noticia/autoridade-das-telecomunicacoes-da-turquia-corta-acesso-ao-youtube-1629977

quinta-feira, 27 de março de 2014

Tratado sobre saudade: amigos, os novos amigos que se faz em terras estrangeiras.

Lembro daquele sentimento de amizade que tinha em minha infância, onde o amigo era como o irmão que nasceu em outra casa.

A gente cresce e a correria meio que não deixa vc lembrar ou pensar nesse sentimento. Eu não sei, mas depois de grande passei a ter saudade das amigas que viajam pra visitar a terrinha, rever os parentes. Por favor, nao entendam como um sentimento egoísta. Quero mais é que elas viagem mesmo e revejam os seus queridos, que faziam parte do mundo delas antes mesmo que eu o fizesse. Quero mais é que curtam os minutos com aqueles que deixaram para trás, e que cada sorriso, lágrima e suspiro seja eterno enquanto a estadia delas durar em seus países de origem.

Mas a gente, que é expatriado, acaba adotando os amigos como família da gente, muito mais (e põe mais nisso) do que os parentes de nossos cônjuges (fala ae que não é?)

Não fiquem com ciúmes vocês amigas, mas esse post eu dedico a minha amiga Noelia (ou Noelita, como sempre a chamo). Apesar de argentina - desculpa a piada, mas você sabe Brasil x Argentina é complicado pra gente - acabou ocupando um lugar importante na minha vida.

Se eu tivesse conhecido a Noelia em minha infância, tenho certeza de que ela seria aquela amiga que eu iria visitar de pijama, brincar com os brinquedos dela, puxar o cabelo brigar e brigar junto ... Aquela amiga que a gente liga e não consegue desgrudar do telefone. Aquela que a família toda já conhece.

Nossa amizade é tão engraçada que as vezes me sinto como num filme de comédia quando estou com ela. Viajamos juntas no aniversário de casamento (calma, meu e do Mustafa). Lógico o marido dela tava junto.

E isso rendeu piada, porque entramos numa loja em Fethiye juntas e num lugar onde tem tanto estrangeiro os locais costumam ser mais cabeça aberta e perguntaram se éramos casadas porque eu falei que estava viajando para comemorar o meu aniversário de casamento...

- Casadas ? Se f*** seu fdp !

Noelia ria e ria, e ficava me chamando de marido (besta). Tirou a foto abaixo e mandou pra mim, como marido&mulher.jpg. Num presta essa minha amiga.

Da última vez que meu marido discutiu comigo por causa de coisa besta foi na casa dela que eu baixei. Serviu chá, biscoitos e daqui cinco minutos tava tirando zarro da situação, do jeito dela e meu nervoso passou por completo.

Ela sempre consegue transformar a situação de trágica em cômica.





Apesar da gente não poder assistir a Copa do Mundo juntas você mora no meu coração sua tranqueira!
Volta logo meu, tô com saudade!

quarta-feira, 26 de março de 2014

Um dia de fúria - e não é o filme com o Michael Douglas

Esse foi o filme que me veio à cabeça:


Decidi dar meu testemunho somente agora, após 2 meses aproximadamente do ocorrido, depois de ler um post num blog de uma brasileira que mora na Turquia - ou morava, agora não me lembro - onde ela fala que "os turcos sabem colocar você no seu lugar, que é o de estrangeira".

E esse lugar, eu não sei porque, não sei onde fica. Não que eu seja melhor do que ninguém - e não sou mesmo - mas o dia em que eu tirei o extrato da MİNHA (minha, não do meu marido) conta bancária e vi o governo cobrando alguns centavos de taxa, adotei o seguinte discurso toda vez que quero reclamar meus direitos:
- Eu pago impostos para seu governo, então eu tenho o direito de reclamar  (...) pois eu não sou turista, eu MORO aqui assim como você.

Bem, até agora a pequena retórica que desenvolvi nesses quase 3 anos de luta, idas ao hospital e duas internações tem me rendido vitórias importantes (com a graça do Senhor). 

Mas eu gostaria de contar aqui o dia em que tive que ir na Turkcell reclamar do celular que meu marido me deu - um android T21 que ele tirou numa promoção apenas por 50 TL - e a bosta do aparelho parava de funcionar toda vez que balançava. Tipo, escutar música ou falar com alguém enquanto estivesse dentro de um veículo em movimento, nem pensar.

Fui à loja da Turkcell e pedi para que transferissem a lista de telefones pra um aparelho que eles têm. O cara salvou a lista no memory card do meu celular mas não me avisou. Devolveu o celular pra mim e saiu da loja, sem se despedir. Fiquei esperando por ele, imaginei que tivesse ido pegar algo em outra loja, sei lá. Como não voltou, perguntei pra vendedora aonde ele tinha ido. Ninguém sabia, claro.
Tipo, sumiu, foi tomar um café ... sei lá, foi pra pqp.

Saí de lá e fui pro escritório do meu marido, contando o ocorrido. Meu marido ligou no celular dele e daí ele me informou que o backup tava salvo no cartão.

Pra resumir eu sei que tive que ir na bosta da assistência técnica duas vezes, e pra mim foi horrível porque eu estava usando um colar cervical e fazendo fisioterapia por conta de uma lesão na vértebra do pescoço.

Quando peguei o celular da assistência fui até a loja pra transferir a lista de telefones novamente pra ele, mas a moça que me atendeu disse que não localizou a lista.

Ou seja: todos meus contatos tinham sido perdidos. 

E me atendeu com um puta descaso, um puta descaso. E eu, com aquela coleira parecendo um ET pedi pra chamar o gerente.

A gerente veio e eu comecei o meu show, porque eu já não tinha mais nada a perder. Meu marido até saiu da loja e foi fumar um cigarro do outro lado da rua.

E o meu discurso foi mais ou menos assim:

- Vocês, toda vez que eu entro nessa loja me olham estranho... por que ? Vocês trabalham numa loja como essa, num lugar privilegiado como esse por onde passam centenas de turistas todos os dias mas ainda não se acostumaram a falar com estrangeiro não? Em que vocês acham que são melhores do que eu? Isso é muita, mas muita FALTA DE RESPEITO porque eu APRENDI A LINGUA DE VOCÊS - e nisso deu um murro na mesa - não entrei nessa loja pedindo pra ninguem falar ingles comigo, sempre tratei vocês muito bem mas não posso dizer o mesmo de vocês! E depois se orgulham da hospitalidade turca! É ISSO QUE VOCÊS CHAMAM DE HOSPITALIDADE ???????? - mais outro murro na mesa. - Eu sou cliente, eu não estou pedindo nenhum favor ! Pago pelos produtos e serviços do mesmo jeito que um turco faz, e estou aqui, nessas condições (e apontei pro colar) pedindo a solução de um problema simples e é assim que vocês tratam os clientes ???????????? - mais outro murro.

Explodi, pus tudo pra fora. Só faltou reclamar da pimenta na comida e das enfermeiras sem luva ...

Foi rídiculo, eu sei. Mas necessário! Não era nem a primeira, nem a segunda vez ... eu tinha que pôr um fim nesse ciclo de falta de respeito. 
Todos os vendedores estavam brancos, e olhei na cara de cada um deles. Ligaram pro barnabé que havia salvo o backup, que deu a orientação pra gerente de como fazer a transferência da lista pro meu celular. Ela se desmanchou em desculpas.

Dias atrás precisei ir naquela loja e uma das mocinhas que sempre me olhava estranho me atendeu super-bem, até puxou papo e perguntou de onde eu era. Se foi por medo ou respeito, eu quero que se foda. O que me importa é o resultado. Se falam mal de mim pelas minhas costas, se me chamam de "a estrangeira louca" nem ligo.

O que importa é que me tratem com dignidade enquanto estou lá, como cliente.

Eu tenho boca, e eu sei o meu lugar, e meu lugar não é mais esquecida no canto como antes ...